Os olhos abertos na escuridão total do quarto.
O único som era a respiração pesada do meu marido, que dormia ao lado como uma pedra.
Para ele, a noite era descanso. Para mim, era o meu campo de batalha particular.
E eu perdia todas as vezes.
Meu nome é Márcia, tenho 54 anos e sou professora. Ou, pelo menos, era o que eu tentava ser durante o dia. À noite, eu era apenas uma prisioneira da minha própria mente.
Eu repassava o dia, as contas, as aulas, o que eu precisava fazer amanhã… um rádio quebrado, chiando sem parar.
O resultado?
Eu vivia como um zumbi.
Arrastava meu corpo cansado pela casa, era ríspida com as pessoas que eu amava e tinha um medo constante de cometer um erro grave na frente dos meus alunos.
Eu já tinha tentado de tudo para calar esse rádio.
Zolpidem. Rivotril. Melatonina. Chá de camomila. Meditação. “Higiene do sono”.
Alguns me “apagavam”, mas eu acordava pior, com uma ressaca química que roubava minha alma. Sentia que meu caso não tinha mais solução. Que eu estava quebrada.
Diferente como?
A primeira coisa que a Dra. Helena me disse no consultório foi: “Márcia, eu sei o que é ficar dois anos sem saber o que é uma noite de sono depois que minha filha nasceu.
Eu já estive nesse inferno.”
Ela me explicou que a insônia crônica não é fraqueza, não é ansiedade.
É um “defeito elétrico”.
Um interruptor no cérebro que fica travado no “ligado”.
E foi aí que ela abriu a gaveta.
Tirou de lá um aparelhinho branco, liso, do tamanho de um ovo.
Eu saí de lá achando que era a maior piada.
Que tinha perdido meu tempo e dinheiro.
Naquela noite, sem esperança nenhuma, eu fiz o que ela mandou.
Deitei, peguei o “ovo” na mão e liguei.
Senti uma vibração minúscula, quase um formigamento.
O rádio na minha cabeça continuava, mas… parecia estar perdendo o sinal.
Um pensamento vinha e sumia. Outro vinha… e se dissolvia.
A próxima coisa que eu lembro foi de abrir os olhos com o sol batendo no meu rosto.
Eu não só tinha dormido.
Eu tinha apagado.
Um sono pesado, contínuo, sem sonhos, sem interrupções.
Sentei na cama e o choro veio.
Um choro de alívio puro.
De quem acaba de ser libertado.